Pais Filhos

Amor Além dos Laços Sanguíneos: A Jornada de Carlos e Lucas na Adoção de Três Irmãos e o Impacto Social da Diversidade Familiar

A história de Carlos Ruiz e Lucas Monteiro, do Rio de Janeiro, é um testemunho comovente de amor incondicional e superação. Este casal, unido por mais de uma década, concretizou o sonho de ter filhos ao adotar Kawã (17), Edgar (15) e Ketlin (10), um grupo de três irmãos que a vida lhes apresentou. Essa jornada, marcada por desafios iniciais de adaptação e a superação de preconceitos sociais, transformou profundamente suas vidas e as dos jovens. Através de sua experiência, eles se tornaram defensores ativos da diversidade familiar e da adoção, compartilhando sua rotina e aprendizados nas redes sociais para inspirar e educar, mostrando que o amor e a segurança são os pilares de qualquer estrutura familiar, independentemente de sua composição.

Quando Carlos e Lucas receberam a notícia de que poderiam acolher não apenas uma, mas três crianças, e que elas eram irmãos, um misto de apreensão e determinação tomou conta deles. Carlos recorda a sensação de “frio na barriga” diante do enorme, mas imperdível, desafio de manter os irmãos unidos. Lucas complementa, enfatizando a convicção imediata de que fariam de tudo para proporcionar estabilidade e afeto a essas crianças, que já haviam enfrentado diversas mudanças em suas vidas. A decisão foi firme: eles iriam em frente. A chegada de Kawã, Edgar e Ketlin à casa de Carlos e Lucas representou um período de intensas descobertas. As crianças vinham de realidades distintas, e a fase de adaptação exigiu dos pais uma imensa dose de paciência, escuta ativa e acolhimento. Carlos relata as visitas ao abrigo antes da chegada dos filhos e como, no início da pandemia, os primeiros 15 dias foram de conhecimento mútuo, com a família dormindo no chão, enquanto os laços começavam a se formar em um ambiente que ainda estava sendo construído.

O que inicialmente seriam duas semanas de convivência temporária tornou-se um arranjo permanente, com a aprovação da justiça, que reconheceu o bem-estar e a segurança dos irmãos no novo lar. Lucas descreve o processo como bastante desafiador, especialmente porque as crianças carregavam consigo as consequências de uma desistência anterior de adoção. Hábitos, rotinas e até mesmo a alimentação eram novidades, exigindo uma recriação completa de seus mundos. O foco primordial dos pais foi estabelecer um ambiente onde a confiança pudesse florescer. Carlos pontua que, nos primeiros meses, gestos simples como um abraço espontâneo ou um pedido de colo representavam grandes vitórias, indicando que os filhos estavam começando a se sentir verdadeiramente em casa. Ele se lembra de episódios em que, diante das inseguranças dos filhos decorrentes de traumas passados, reafirmava constantemente: “Vocês são os nossos filhos, aconteça o que acontecer. Nós somos os pais de vocês e vamos juntos, vamos seguindo juntos”.

Com o tempo, a família encontrou seu próprio ritmo, e cada membro começou a se encaixar. Lucas reflete que a paternidade não é sobre moldar, mas sobre acolher a essência de cada um, fornecendo as ferramentas necessárias para que cresçam com confiança. Carlos conta que, inicialmente, os filhos não sabiam o que era uma sala de estar, e era visível a incerteza de onde se encaixavam na casa e na nova dinâmica familiar. Kawã, o mais velho, sentia o peso da responsabilidade de cuidar dos irmãos mais novos, e a confiança de cada um precisou ser conquistada de maneiras distintas. Essa experiência reforçou para eles que o amor vai além do sentimento, sendo uma decisão diária, capaz de superar os dias desafiadores e solidificar a certeza de que, juntos, tudo vale a pena. Antes da entrada dos filhos na escola, Carlos e Lucas dedicaram-se a uma preparação intensa, não só na alfabetização, mas também na conscientização sobre preconceitos. Lucas explica a complexidade de serem dois pais brancos com três crianças pretas, um cenário que, mesmo sem as redes sociais na época, já gerava situações diversas. Preconceito racial e homofobia eram temas abordados abertamente, com os pais incentivando os filhos a comunicar qualquer incidente na escola ou em casa, para que pudessem agir rapidamente e não deixar nenhuma injustiça impune.

A vivência do casal com a diversidade e a inclusão evoluiu da esfera doméstica para a pública, com a criação de um perfil nas redes sociais que hoje impacta mais de 634 mil pessoas. Neste espaço, Carlos e Lucas compartilham fragmentos de seu dia a dia e reflexões profundas sobre paternidade, adoção, diversidade de gênero e racial, e, em especial, sobre as múltiplas configurações familiares. Carlos reconhece que, apesar de se considerarem “descolados e desconstruídos” como membros da comunidade LGBTQIA+, a chegada dos filhos revelou novas camadas de desconstrução pessoal. Ele questiona, por exemplo, por que Ketlin só tinha bonecas brancas ou se os desenhos que assistiam apresentavam personagens negros, evidenciando como a chegada das crianças trouxe uma percepção mais profunda sobre questões que antes passavam despercebidas. Lucas destaca que o Instagram se tornou uma plataforma essencial para demonstrar a existência e a felicidade de famílias como a deles, que enfrentam desafios comuns a todas as outras. As inúmeras mensagens de pessoas que se sentem representadas e encorajadas por seu conteúdo reforçam o poder da internet, quando utilizada com respeito, para construir uma rede de apoio robusta. O objetivo é claro: normalizar a adoção e as diversas estruturas familiares, promovendo debates importantes com leveza.

Cinco anos após a adoção, a casa de Carlos, Lucas, Kawã, Edgar e Ketlin vibra com vozes, risadas e a naturalidade do cotidiano, por vezes caótico. Contudo, para eles, essa é a essência de uma família completa. Carlos conclui que o desejo de construir uma família foi plenamente realizado, e o resultado foi uma família “muito mais completa, diversa e bonita do que imaginávamos”.