A aspiração de todo genitor é que seu filho floresça com qualidades de generosidade e empatia, apto a compreender e se conectar com os sentimentos alheios. No entanto, o cotidiano da criação, mesmo permeado de carinho, pode inadvertidamente fortalecer condutas egoístas nas crianças. Isso ocorre porque os pequenos aprendem observando, e seus pais atuam como modelos primordiais. Conforme a psicóloga Tatiana Serra, as ações parentais são refletidas nas crianças, moldando seus comportamentos e servindo como um referencial para suas atações.
A propensão ao egoísmo é uma característica intrínseca ao ser humano, sendo particularmente evidente entre o primeiro e o terceiro ano de vida. Mariana Ruske, pedagoga e fundadora da Senses Montessori School em São Paulo, elucida que nesta fase, as crianças ainda não compreendem a noção de propriedade ou retorno de objetos emprestados, vivenciando um período de forte autocentrismo. À medida que o desenvolvimento emocional avança, essa característica tende a diminuir. Contudo, a persistência do egoísmo, caso não seja abordada e trabalhada, pode prejudicar significativamente as interações sociais da criança, como adverte Anna Bohn, pediatra da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Uma criança habituada a ter suas vontades sempre satisfeitas pode esperar o mesmo dos outros, o que compromete a construção de relações saudáveis, que dependem de reciprocidade, escuta ativa e empatia, reitera Mariana. Além disso, a longo prazo, essa conduta egocêntrica pode culminar no desenvolvimento de traços narcisistas ou antissociais, tornando a vida do indivíduo angustiante ao precisar compartilhar ou ceder a atenção de outros adultos.
Diante desse cenário, especialistas indicam oito condutas parentais que podem reforçar o egoísmo infantil e sugerem abordagens mais construtivas:
1. Defender o filho incondicionalmente em conflitos
Quando surgem desentendimentos entre crianças, o impulso protetor dos pais pode levá-los a intervir a favor de seus filhos, mesmo quando estes estão equivocados. Essa postura impede que a criança assuma responsabilidades por suas ações, dificulta a percepção do ponto de vista alheio e obstrui o desenvolvimento de habilidades de negociação e empatia.
✔️ O que fazer: Antes de intervir, ouça todas as partes envolvidas no conflito. A intervenção deve ocorrer apenas se as crianças não conseguirem resolver a situação sozinhas. Incentive seu filho a refletir sobre o ocorrido e a reconhecer seus erros, promovendo a humildade e a consideração pelos outros.
2. Dizer 'sim' para tudo
Apesar de nenhum pai gostar de contrariar os filhos, a imposição de limites é fundamental. A ausência de limites, motivada pelo receio de desagradar ou perder o afeto da criança, impede que ela compreenda que o mundo não gira em torno de suas vontades. Crianças que nunca são frustradas tendem a ter baixa tolerância a essas experiências.
✔️ O que fazer: Estabeleça limites claros, com afeto e consistência. A estrutura é essencial para a segurança da criança. Pequenas frustrações são cruciais para o amadurecimento cerebral, desenvolvendo resiliência, autocontrole e habilidades cognitivas.
3. Oferecer recompensas sem esforço
Conceder tudo o que a criança deseja, sem que ela participe ou demonstre esforço, ensina que as coisas vêm facilmente e que o esforço é desnecessário. Essa percepção pode moldar suas expectativas em relação ao mundo.
✔️ O que fazer: Incentive o consumo consciente e com propósito. Mimos ocasionais são aceitáveis, mas é crucial resistir ao materialismo e incluir a criança no processo de escolha e aquisição de presentes, ensinando sobre valor, esforço e gratidão. Mostre o significado por trás do que está sendo oferecido, não apenas o preço.
4. Excesso de controle ou superproteção
Resolver todos os problemas da criança e protegê-la de lidar com as consequências de seus atos prejudica o desenvolvimento da autonomia e das competências socioemocionais.
✔️ O que fazer: Permita que seu filho enfrente as consequências de suas escolhas. Vivenciar essas experiências, com apoio e carinho, é vital para construir responsabilidade e aprender a lidar com erros e a resolver problemas de forma independente.
5. Usar adjetivos negativos na correção
Frases como 'não seja mau, dê seu brinquedo para o amigo' podem parecer inofensivas, mas são prejudiciais. Ao ensinar que a criança é 'boa' apenas quando cede, os pais não cultivam a empatia, mas sim a ação por culpa ou medo. Isso pode gerar uma rejeição à ideia de compartilhar a longo prazo.
✔️ O que fazer: Nomeie o comportamento, não a criança. Em vez de 'você está sendo mau', diga 'entendo que você queira brincar sozinho agora, mas o outro também quer brincar'. Demonstre que a troca é possível, oferecendo um brinquedo de seu filho para outra criança e pedindo um emprestado para ele brincar.
6. Não validar os sentimentos da criança
Em certas ocasiões, a criança realmente não quer compartilhar um brinquedo, e isso é compreensível. Quando os pais forçam a partilha, podem gerar raiva e insegurança em relação ao que é 'dela'. Ao entregar os brinquedos dela para outras crianças, mesmo que ela resista, os pais transmitem a mensagem de que os sentimentos dela não importam.
✔️ O que fazer: Valide o choro quando seu filho não quiser compartilhar. O aprendizado da partilha demanda tempo e maturidade neurológica. Lutar contra a criança quando ela chora por não querer compartilhar não facilita o processo. Apenas abrace-a, diga que compreende e aguarde que ela se acalme.
7. Falta de afeto
Quando os pais são distantes emocionalmente ou pouco expressivos em seu carinho, a criança pode crescer buscando compensar essa carência através da busca constante por atenção ou bens materiais. Isso pode fomentar uma postura egocêntrica, como se o afeto precisasse ser constantemente conquistado ou comprado.
✔️ O que fazer: Ofereça sempre atenção e carinho através de ações e palavras. Esteja presente, converse, escute e mostre que se importa com os sentimentos dela.
8. Agir sempre em benefício próprio
É natural pensar em si mesmo ocasionalmente. Contudo, se os pais só fazem favores em troca de benefícios, não compartilham nada e não oferecem ajuda voluntariamente, estarão ensinando seus filhos a agirem da mesma forma. As crianças são como esponjas, absorvendo tudo o que seus pais fazem.
✔️ O que fazer: Seja o exemplo em pequenos gestos. Crianças aprendem mais observando do que ouvindo. Atitudes como ceder lugar, agradecer, pedir desculpas e ajudar espontaneamente ensinam mais sobre empatia do que longas explicações.
