Em um mundo cada vez mais conectado, a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital tornou-se uma questão crucial e complexa. A autora desta reflexão, Elisama Santos, psicanalista e educadora parental, levanta um debate essencial sobre a responsabilidade de pais, do Estado e das gigantes da tecnologia na criação de um espaço online seguro para os mais jovens. Ela argumenta que a tarefa de “embalar” Matheus (metaforicamente, a criança) não pode ser de um único cuidador, mas exige uma rede de apoio robusta para enfrentar os perigos que espreitam nas telas, desde golpes e manipulações por inteligência artificial, até conteúdos inapropriados e aliciamento, culminando em desafios que podem levar à morte.
A Urgência da Colaboração para a Segurança Digital dos Jovens
A colunista Elisama Santos, profissional com vasta experiência acadêmica e pessoal, compartilhou recentemente sua própria vulnerabilidade diante dos perigos da internet, ao ser vítima de um golpe online e admitir a dificuldade em discernir conteúdos reais de manipulações por inteligência artificial. Este relato pessoal, que ocorreu em um período de cansaço e sobrecarga, serve como um alerta contundente. Se um adulto com seu histórico de vida e formação enfrenta tais desafios, questiona-se a inocência de acreditar que crianças e adolescentes, mesmo em lares considerados exemplares, estariam naturalmente preparados para lidar com o turbilhão de informações e influências disseminadas nas plataformas digitais.
A reflexão de Santos é incisiva: a ideia de que apenas a força de vontade familiar, firmeza e cuidado são suficientes para equipar os jovens para o mundo online é uma ilusão perigosa, que denota uma falta assustadora de conhecimento sobre a engenharia por trás das redes sociais. Ela enfatiza que cada elemento exibido nas telas, desde a escolha de uma música até a paleta de cores, é meticulosamente planejado e calculado para capturar e reter a atenção dos usuários. A autora critica a passividade diante da exploração infantil online, exemplificada pelo choque nacional com as denúncias do influenciador Felca, onde a discussão se focou na prisão dos exploradores e na culpa das famílias, mas pouco se falou sobre a falha do Estado na prevenção desses crimes.
A psicanalista defende que a prevenção é, e sempre será, a medida mais eficaz. Ela compara a situação a chorar pelo leite derramado enquanto se insiste em deixar o copo na beirada da mesa, resultando em quedas contínuas. A ausência de regulação e responsabilização por parte das grandes empresas de tecnologia perpetua um ambiente digital sujo e perigoso. Para Santos, a proteção da infância não deve ser um tema partidário ou uma responsabilidade exclusiva das famílias ou dos próprios jovens. É imperativo pressionar o poder público e as big techs. Embora as famílias sejam pequenas frente aos gigantes corporativos, a união e a ação coletiva aumentam exponencialmente as chances de sucesso nessa luta, pois, como ela conclui, não existe outro caminho.
A análise da especialista sublinha a necessidade premente de uma ação concertada entre todos os setores da sociedade. A família desempenha um papel fundamental, mas não pode ser a única linha de defesa. O Estado precisa implementar políticas de regulação e fiscalização mais eficazes, e as empresas de tecnologia devem assumir sua parcela de responsabilidade na concepção e manutenção de ambientes digitais seguros. Somente através desta colaboração multifacetada poderemos construir um futuro digital onde crianças e adolescentes possam explorar, aprender e interagir sem os riscos inaceitáveis que hoje permeiam as redes sociais.
