A pandemia de COVID-19 deixou marcas profundas na sociedade, e para muitas mães, o impacto foi especialmente avassalador, resultando em um período de intensa luta contra a depressão, o esgotamento e a solidão. Cinco anos após o início da crise sanitária global, emergem relatos emocionantes que expõem as feridas não cicatrizadas de mulheres que, em meio ao caos, tentaram equilibrar as demandas da maternidade com o isolamento e as incertezas. A experiência coletiva revela uma necessidade premente de reconhecer e abordar os desafios persistentes na saúde mental materna, para que as cicatrizes emocionais deixadas por esse período possam finalmente começar a se curar.
A Maternidade Sombria da Pandemia: Relatos de Mães
Em março de 2020, o anúncio da pandemia de Coronavírus transformou radicalmente a vida em todo o mundo. Com escolas e comércios fechados e ruas desertas, o medo e a incerteza pairavam no ar. Para muitas mães, este período coincidiu com fases cruciais de suas vidas e das de seus filhos, expondo-as a desafios emocionais e psicológicos sem precedentes.
Em São Paulo, a jornalista e escritora Vanessa de Moraes Barbara, de 43 anos, viu-se em um turbilhão. No auge do pós-parto, com sua filha Mabel de apenas um ano e meio, a pandemia a arrastou para um estado de profunda melancolia, comparável ao Tártaro da mitologia grega. Já sofrendo de depressão crônica desde a juventude, Vanessa, mesmo sob tratamento, enfrentou uma intensa privação de sono devido ao fechamento das creches, agravando seu quadro. Seu livro, "Três Camadas de Noite", reflete essa dura realidade, misturando elementos mitológicos com a experiência do puerpério pandêmico.
A pequena Mabel, que então tinha dois anos, sentiu os efeitos do isolamento. Seu desenvolvimento foi impactado, com regressão em habilidades sociais e motoras. Vanessa narra um momento comovente em meados de 2020, quando Mabel, após meses de confinamento, pedalou sua motinha até o térreo do prédio e, maravilhada, exclamou ao ver as plantas: "As flores! As árvores!". Diante da dificuldade de explicar a gravidade da situação a uma criança, Vanessa optou por uma abordagem simples, mencionando um vírus e a busca por uma vacina, o que inspirou seu livro infantil, "Bibi fica esquisita".
Em Brasília, a servidora pública Pollyana Cardoso Neves Lopes, de 40 anos, teve seu segundo filho, Théo, em 2021, o ano mais letal da pandemia no Brasil. O parto, uma cesárea de emergência, foi marcado por protocolos rigorosos e a ausência de um acolhimento humanizado. Em meio a uma alta demanda de trabalho remoto e acompanhando a alfabetização online do filho mais velho, Heitor, Pollyana se sentiu exausta e incapaz de desfrutar da gravidez. A frase "Não tirei uma foto grávida" resume a dor de uma gestação vivida em completa sobrecarga e despersonalização. A depressão pós-parto se instalou, intensificada pela falta de apoio familiar no puerpério.
O impacto da pandemia na saúde mental materna é corroborado por estudos. Uma pesquisa da Fiocruz, publicada em 2024, revelou que a taxa de depressão pós-parto saltou de 14% para 31% durante a crise sanitária. A psiquiatra Verônica Leite, especialista em saúde materna, destaca o isolamento, a incerteza econômica e o luto como fatores cruciais para o aumento de sintomas depressivos e ansiosos na população em geral, e particularmente entre as mães.
A psicóloga Nicole Amorim, de Curitiba, também vivenciou o esgotamento materno em 2021, enquanto atendia pacientes em crise e cuidava de seu filho Gael, então com dois anos. O “burnout materno”, embora ainda não classificado formalmente como doença, é uma síndrome crescente, afetando nove em cada dez mães, segundo pesquisa de 2024. Nicole, que já havia lidado com depressão pós-parto antes da pandemia, ressalta a diferença entre o burnout, que se manifesta como uma exaustão específica da maternidade, e a depressão, que atinge todas as esferas da vida. Sua experiência de automedicação durante a gravidez e a subsequente melhora na segunda gestação, quando manteve o tratamento, reforçam a importância do acompanhamento profissional.
A fotógrafa Annie Aline Baracat, de São Paulo, mãe solo de Murilo, adotado em 2016, enfrentou a pandemia com a responsabilidade dobrada de cuidar do filho e da própria mãe idosa. O trabalho remoto, a necessidade de usar a televisão como "babá" e a sobrecarga de tarefas levaram a um diagnóstico de depressão e TDAH. O apoio psicológico e medicamentoso foi fundamental para que Annie pudesse se reerguer e priorizar seu próprio bem-estar.
Cinco anos depois, as cicatrizes persistem. A hipervigilância, o pânico e o luto perinatal são consequências que ainda assombram muitas mães que deram à luz ou vivenciaram perdas durante a pandemia. A psicóloga Nicole Amorim e a psiquiatra Verônica Leite reforçam que o luto parental aumenta significativamente a incidência de transtornos mentais. A sensação de culpa, incapacidade materna e a desilusão com a falta de apoio social para as famílias são sentimentos comuns entre essas mulheres. A pandemia revelou uma sociedade despreparada para apoiar a maternidade em tempos de crise, deixando um legado de desafios que clamam por políticas públicas mais eficazes e um olhar mais atento à saúde mental das mães.
Reflexões sobre a Resiliência e as Lacunas Sociais na Maternidade Pandêmica
Acompanhar esses relatos é mergulhar em um oceano de resiliência e dor, uma verdadeira odisseia vivida por milhares de mães durante a pandemia. Como jornalista, sinto a responsabilidade de amplificar essas vozes, que, apesar das conquistas e aprendizados, ainda carregam o peso de um período que roubou a leveza de um dos momentos mais singulares da vida: a maternidade. A capacidade humana de adaptação é admirável, mas não isenta de cicatrizes profundas. Fica evidente que a sociedade, em suas estruturas mais básicas, falhou em oferecer o suporte necessário. A falta de políticas públicas robustas para o cuidado infantil e a saúde mental materna não é apenas uma omissão, mas uma ferida aberta que demanda atenção urgente. Essas histórias são um lembrete contundente de que, para construir um futuro mais justo e equitativo, precisamos priorizar o bem-estar das mães, reconhecendo que sua saúde é o alicerce fundamental para o desenvolvimento de toda a família e da sociedade como um todo.
