Descobrindo a Essência da Beleza Interior
Um convite à reflexão sobre a própria imagem
No início da obra, somos apresentados a um símbolo significativo: o abebé, um leque com espelho associado à divindade africana Oxum. Este objeto místico representa a generosidade da orixá, que oferece apoio àqueles que se veem refletidos nele em momentos de adversidade. Esse detalhe inicial antecipa o enredo que Maíra Azevedo criou e que Priscila de Vasconcelos tão habilmente ilustrou. Em \"A Menina Que Não Sabia Que Era Bonita\" (Ed. Malê, 2025, R$ 64,90), exploramos a vida de uma família cheia de amor e complexidade: a filha mais nova buscando seu lugar, os pais dedicados ao trabalho, o carinho da avó e a proximidade dos tios que parecem irmãos. É uma história comovente e poderosa sobre identidade, inclusão e afeto.
A visão da menina sobre o mundo e sobre si mesma
Essa jovem personagem demonstrava uma atenção notável a tudo. Curiosa e perspicaz, ela questionava o ambiente ao seu redor com a indagação típica de quem ainda estava compreendendo o significado de pertencer. Incomodava-se, por exemplo, com o fato de sua avó ter educado os filhos sozinha — e como isso impunha a expectativa de ser \"duas vezes melhor\". Constantemente inquisitiva, ela assimilava informações e as interpretações que lhe eram oferecidas sobre a existência. Contudo, havia algo que ela desconhecia — e o texto revela com delicadeza: \"Havia uma coisa que a menina não compreendia de modo algum. A menina não sabia que era bonita. Ela observava ao redor e encontrava beleza em tudo. Nas cores, nas flores, nas refeições e nas pessoas, mas não conseguia perceber a sua própria beleza.”
O espelho da autoaceitação e a jornada onírica
Diante do reflexo e do mundo, ela ponderava sobre seus cabelos que cresciam para cima, sobre sua pele escura, sobre o espaço que ocupava. Até que, numa noite, em um sonho, ela embarca em uma jornada de redescoberta pessoal — um caminho suave e profundo para, finalmente, reconhecer sua verdadeira essência.
A centelha inspiradora: um diálogo entre gerações
A gênese dessa narrativa surgiu de uma simples conversa entre Maíra Azevedo — atriz, roteirista, e conhecida como Tia Má — e sua filha, então com apenas três anos. Não foi um diálogo complexo ou tenso, mas acendeu uma compreensão profunda. “Perguntei: ‘Filha, você sabia que é linda?’ E ela respondeu: ‘Sim’. Aquilo me marcou profundamente, pois na minha infância, eu não percebia minha própria beleza”, compartilha Maíra. Ela recorda que, embora fosse uma criança curiosa e questionadora, não tinha consciência de sua própria beleza. “Ver que minha filha sabia — sem hesitação — que era bonita, mexeu muito comigo. E, mais do que isso, me deu vontade de conversar com a Maíra que eu fui. Queria dizer àquela criança: ‘Ei, você precisa saber que é bonita’. Foi daí que surgiu a concepção do livro.”
O nascimento de uma obra e a emoção do reconhecimento
Impulsionada pelo desejo de dialogar com as infâncias — não apenas a sua, mas a de inúmeras outras crianças — Maíra compôs o texto de forma quase instintiva, direta, sem restrições. “Escrevi tudo de uma vez, de modo simples. Conversei com Wagner, da editora Malê, e colaboramos até chegarmos ao nome da ilustradora, Priscila”, revela, sobre esta estreia no universo da literatura infantil, onde as imagens possuem uma relevância tão grande quanto as palavras. E como foi ver o livro completo, com texto e ilustrações lado a lado? Maíra se emociona ao recordar: “Eu chorei! Estava com minha mãe, minha filha, minha sogra e minha tia. Naquele instante, me conectei com a Maíra de cinco anos. Caí em prantos, mas senti, ao mesmo tempo, que aquela menina estava feliz. Muito feliz por se ver representada de uma forma tão encantadora.”
Celebrando a pluralidade da beleza e o poder da representatividade
Além das mulheres de sua família, o livro também tocou outras figuras importantes. Na contracapa da obra, dois testemunhos notáveis reforçam sua força: os da atriz Taís Araújo e da cantora Ivete Sangalo. “Reconheci-me principalmente como a adulta que, após muitos anos, conseguiu enxergar beleza e riqueza em suas origens”, escreveu Taís. Já Ivete sublinhou: “Este livro promove um resgate significativo da autoestima, repleto de poesia e delicadeza — qualidades igualmente notadas na beleza desta criança.” Para Maíra, contar com essas vozes foi simbólico. “São duas mulheres admiráveis profissionalmente, mas que também são mães exemplares”, afirma. Ela esclarece a importância dessas participações na obra: “Ter a opinião da Ivete foi muito especial. Ela é mãe de crianças brancas, mas compreende a relevância de abordar a pluralidade das belezas. E ter Taís Araújo — uma mulher negra que foi uma das primeiras a ser reconhecida nacionalmente como um ícone de beleza — também foi extremamente significativo.” Com esse apoio e a repercussão inicial do livro, Maíra tem grandes aspirações: “Desejo que esta obra circule amplamente, que alcance muitas crianças e contribua para iniciar conversas sobre as diversas formas de beleza existentes em nosso país. Porque sim, precisamos falar de beleza no plural.”
