Ainda na tenra idade, muitas crianças brasileiras deparam-se com a dura realidade do preconceito racial. Levantamento recente aponta que 16% dos pequenos com até seis anos já experimentaram alguma forma de racismo, uma proporção que salta para 19% quando os cuidadores são de pele preta ou parda. Esses incidentes ocorrem predominantemente em ambientes educacionais, como creches e pré-escolas, sublinhando a necessidade urgente de ações eficazes contra a discriminação. O racismo nessa fase crucial da vida pode gerar sequelas duradouras na saúde, no aprendizado e na autoestima das crianças, ressaltando a importância de um ambiente seguro e inclusivo para o desenvolvimento pleno.
Os dados, extraídos da pesquisa "Panorama da Primeira Infância: o impacto do racismo", conduzida pelo Datafolha a pedido da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, revelam uma estatística alarmante: mais da metade (54%) dos episódios de discriminação ocorrem em creches ou pré-escolas. Este índice é ainda maior na pré-escola (61%) em comparação com a creche (38%). A percepção desses casos se intensifica à medida que as crianças crescem e adquirem maior capacidade de compreender e expressar suas experiências. Mariana Luz, CEO da Fundação, enfatiza a inaceitabilidade dessas situações, especialmente por ocorrerem em um período tão decisivo para a formação infantil.
A pesquisa, realizada entre 8 e 10 de abril de 2025, entrevistou 2.206 pessoas, incluindo 822 responsáveis por crianças de 0 a 6 anos. A margem de erro é de 2 pontos percentuais para a amostra total e 3 para o grupo de responsáveis por crianças pequenas. Juliana Prates, infancialista e professora da UFBA, destaca que o racismo é um problema sistêmico que permeia instituições e práticas cotidianas. Apesar de não ser uma novidade, a denúncia constante de movimentos negros e profissionais da educação agora é corroborada por dados concretos.
A escola, embora seja um cenário de reprodução do racismo, também possui o potencial de ser um vetor de transformação. Para isso, é fundamental investir na formação de educadores, na criação de materiais pedagógicos adequados e em um compromisso efetivo com a educação antirracista. A Lei 10.639/2003, que exige o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, ainda não é totalmente aplicada, com quase 90% das turmas de educação infantil ignorando questões étnico-raciais. Além das escolas, outros locais como parques, praças, condomínios e até ambientes familiares são cenários de racismo, evidenciando que a sociedade brasileira está longe de garantir uma infância equânime e segura para todas as crianças.
O racismo nos primeiros anos de vida pode ter consequências graves, como o desenvolvimento do estresse tóxico, uma resposta fisiológica intensa e prolongada ao estresse sem o devido apoio. Em um período crucial para a formação cerebral, tais experiências comprometem a aprendizagem, a memória, a regulação emocional e a saúde mental, afetando diretamente a identidade e a autoestima da criança negra. A falta de representatividade positiva e a exposição a comentários preconceituosos podem levar à internalização de mensagens desvalorizadoras, prejudicando a autoconfiança e o senso de pertencimento. É vital estar atento a sinais como falta de afeto, mudanças bruscas de humor, comparações pejorativas sobre a própria aparência, isolamento ou agressividade, que podem indicar que uma criança está sendo vítima de racismo. Garantir uma infância livre de racismo é essencial para o desenvolvimento integral e para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa.
