Ao longo dos últimos anos, um sistema alternativo de compensação e liquidação financeira tem emergido como resposta à predominância do dólar americano no comércio internacional. Esse novo ecossistema, liderado principalmente por países como China e Rússia, busca reduzir a dependência global das estruturas ocidentais tradicionais, tais como o SWIFT. Composto por iniciativas como o CIPS, mBridge, SPFS e INSTEX, este sistema oferece soluções para transações internacionais sem a necessidade direta do dólar. No entanto, os desafios geopolíticos e tecnológicos persistem, especialmente para economias periféricas que buscam se integrar a essa nova ordem.
O desenvolvimento dessas plataformas representa não apenas uma transformação tecnológica, mas também uma reconfiguração estratégica da geoeconomia mundial. Enquanto algumas delas alcançaram avanços significativos, outras enfrentam limitações políticas e operacionais. Além disso, as moedas digitais emitidas pelos bancos centrais (CBDCs) ganham destaque como parte dessa rede, oferecendo novas possibilidades para pagamentos internacionais em tempo real.
Sistemas Emergentes: Uma Nova Ordem Financeira
Com o objetivo de criar uma infraestrutura robusta capaz de competir com o sistema dominante, várias iniciativas têm sido implementadas. O Cross-Border Interbank Payment System (CIPS), por exemplo, é um mecanismo chinês projetado para facilitar transações internacionais em renminbi. Já o mBridge explora o uso de moedas digitais entre diferentes países, promovendo liquidações rápidas e eficientes. Esses sistemas representam uma evolução significativa na maneira como as transações são realizadas, proporcionando maior independência das redes ocidentais.
O CIPS foi lançado oficialmente em 2015 pelo Banco Popular da China, buscando diminuir a dependência do SWIFT. Atualmente, conecta mais de 1.300 instituições financeiras em mais de 100 países, processando bilhões de dólares diariamente. Sua integração parcial com o SWIFT permite uma transição gradual para esse novo modelo. Por outro lado, o mBridge surge como uma plataforma multilateral inovadora, permitindo o uso direto de moedas digitais emitidas por bancos centrais. Testes bem-sucedidos já foram conduzidos envolvendo diversas instituições de quatro países, demonstrando o potencial dessa solução. Ambos os sistemas refletem uma tendência crescente de descentralização financeira.
Implicações para Economias Periféricas
Para economias emergentes, como o Brasil, a adoção dessas novas tecnologias apresenta tanto oportunidades quanto riscos. A diversificação monetária pode reduzir a dependência excessiva do dólar, especialmente nas relações comerciais com grandes parceiros como a China. Além disso, a inclusão em plataformas como o mBridge ou o CIPS poderia acelerar o desenvolvimento de uma CBDC local, alinhando-a às tendências globais.
No entanto, questões relacionadas à governança e à assimetria tecnológica permanecem relevantes. O Brasil terá que adaptar sua regulação cambial e bancária para interagir efetivamente com essas novas infraestruturas. Um exemplo prático seria a utilização do renminbi digital (e-CNY) em transações comerciais Sul-Sul. Nesse cenário, o Brasil poderia receber pagamentos pela exportação de petróleo diretamente em moeda digital chinesa via CIPS. Posteriormente, esses recursos poderiam ser convertidos em moedas locais de outros parceiros comerciais, como a Índia, através da plataforma mBridge. Isso elimina a necessidade de intermediários ocidentais e reduz custos de transação, além de fortalecer a autonomia financeira do Sul Global.
