No coração de Havana, Michael, um pai de 40 anos, explica a situação econômica a seu filho enquanto sai de mãos vazias de um supermercado que só aceita pagamentos em dólar. Esses estabelecimentos, recentemente inaugurados pelo governo cubano como parte de uma estratégia para captar moeda estrangeira, refletem as crescentes disparidades na ilha. Desde o anúncio do primeiro-ministro Manuel Marrero em dezembro, essas lojas se tornaram símbolos de uma economia fragmentada, onde aqueles com acesso a remessas familiares podem desfrutar de luxos inalcançáveis para muitos.
A decisão do governo cubano de reativar as lojas dolarizadas não é nova. Desde os tempos da crise econômica pós-soviética nos anos 90, o país já experimentou medidas semelhantes. No entanto, a atual abordagem surge em meio a uma das piores crises econômicas dos últimos trinta anos, marcada por escassez generalizada e apagões frequentes. Para alguns, como Enzo Puebla, um jovem engenheiro industrial que recebe dinheiro de sua família no exterior, essas lojas oferecem soluções práticas. “Sempre viemos aqui, encontramos o que buscamos”, disse ele, referindo-se aos produtos antes difíceis de obter.
Por outro lado, a realidade para muitos cubanos é bem diferente. Com salários médios de cerca de 5.000 pesos mensais — equivalente a aproximadamente 42 dólares ou 240 reais na cotação atual — adquirir itens básicos em dólar parece uma utopia. O economista Mauricio de Miranda ressalta o impacto dessa medida: “O maior problema é que apenas uma pequena parcela da população pode participar deste novo sistema, excluindo quem não tem acesso direto ao dólar.”
O contraste entre as lojas dolarizadas e aquelas que aceitam MLC (moeda livremente conversível) criou uma narrativa popular. Em frente ao Supermercado de Tercera y 70, por exemplo, encontra-se uma loja MLC, ironicamente apelidada pelos moradores locais como "El príncipe y el mendigo". Este cenário ilustra claramente a divisão social gerada pelas políticas atuais.
A relação do governo cubano com o dólar sempre foi ambígua. Após ser banido logo após a Revolução de 1959, o dólar voltou às lojas em 1993 como resposta à queda do bloco soviético. Em 2004, Fidel Castro retirou o dólar de circulação novamente, substituindo-o por uma moeda local indexada. Agora, a economista Tamarys Bahamonde compara esta nova fase à dolarização parcial dos anos 90, advertindo sobre os desafios de desdolarizar o país no futuro.
Enquanto o governo argumenta que essa medida é temporária, especialistas como Bahamonde alertam para os riscos de longo prazo. A experiência cubana demonstra as complexidades envolvidas na gestão de uma economia dual, onde o acesso a bens essenciais depende diretamente da capacidade de obter moeda estrangeira. Assim, enquanto alguns conseguem encher seus carrinhos de compras, outros continuam lutando para suprir suas necessidades básicas em um sistema que ainda busca encontrar equilíbrio.
