Finanças

Supermercados Dolarizados Ampliam Desigualdade em Cuba

O cenário econômico de Cuba ganha novos contornos com a reativação das lojas que aceitam apenas pagamentos em dólar, uma medida do governo para capturar moedas estrangeiras. Essa abordagem divide ainda mais a população entre aqueles que têm acesso às remessas familiares e os que dependem exclusivamente da economia local. A estratégia, vista como necessária pelo primeiro-ministro Manuel Marrero, busca controlar o fluxo ilegal de divisas enquanto enfrenta críticas por excluir parcelas significativas da sociedade.

No coração desta questão está Michael, um cubano de 40 anos, cuja experiência em um supermercado dolarizado em Havana ilustra as dificuldades enfrentadas por muitos. Ao tentar acessar produtos em um desses estabelecimentos, ele foi informado de que somente transações em dólares eram aceitas. Sem a moeda americana em mãos, teve de sair sem compras, destacando a crescente disparidade social no país.

A implementação dessa política ocorre em meio a uma grave crise econômica na ilha, marcada pela escassez de itens essenciais como alimentos e medicamentos. Enquanto alguns conseguem se beneficiar graças às remessas enviadas por familiares no exterior, outros permanecem à margem desse sistema. Para Enzo Puebla, jovem engenheiro industrial que tem acesso ao dinheiro enviado de fora, as lojas dolarizadas representam uma solução prática para obter bens escassos.

O economista Mauricio de Miranda aponta um paradoxo central: enquanto parte significativa dos gastos de consumo é dolarizada, as rendas continuam vinculadas à moeda local. Esse desequilíbrio exclui milhões de cidadãos que não possuem meios de adquirir dólares. Além disso, a comparação entre as prateleiras cheias das lojas dolarizadas e as vazias das unidades que aceitam MLC (moeda virtual criada pelo governo) reflete a polarização social atual.

A história do dólar em Cuba é marcada por altos e baixos. Desde sua proibição logo após a Revolução Cubana até a breve fase de descriminalização nos anos 90, a relação do país com a moeda americana sempre esteve cercada de contradições. Tamarys Bahamonde, economista associada da American University, destaca que esta nova ofensiva lembra muito as políticas adotadas na década de 1990, mas questiona a capacidade real do governo de "desdolarizar" o país no futuro próximo.

Apesar das boas intenções declaradas pelas autoridades, a iniciativa amplia a lacuna entre ricos e pobres em uma ilha já fragilizada economicamente. O impacto social torna-se evidente quando comparadas as experiências de quem pode frequentar esses supermercados e os demais que enfrentam diariamente a escassez. Este contexto revela uma complexa intersecção entre política econômica e desigualdade social, desafiando as soluções propostas pelo governo cubano.