Desvendando o TDAH: Um Guia Essencial para o Entendimento e Suporte na Adolescência
A Ascensão do TDAH nas Redes Sociais e a Necessidade de Informação Qualificada
O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) tem ganhado destaque nas plataformas digitais, mas, infelizmente, essa visibilidade é frequentemente acompanhada por uma enxurrada de informações imprecisas. Vídeos e conteúdos sem base científica levam muitos jovens a acreditarem ter o transtorno de forma errônea, o que tem gerado grande preocupação entre os profissionais da saúde. Diante deste cenário, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) agiu proativamente, divulgando um documento científico abrangente para orientar sobre o diagnóstico e o manejo do TDAH.
SBP Lidera o Debate no 17º Congresso Brasileiro de Adolescência
O lançamento deste importante documento foi um dos pontos altos do 17º Congresso Brasileiro de Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), que ocorreu em Porto Alegre (RS) entre os dias 17 e 20 de setembro. O evento reuniu especialistas para discutir não apenas os sinais e as formas de tratamento do TDAH, mas também a importância de oferecer suporte e acolhimento aos adolescentes que vivem com essa condição.
Desvendando o TDAH: Compreendendo suas Raízes no Neurodesenvolvimento
O TDAH é classificado como um transtorno do neurodesenvolvimento, cujos indicadores podem surgir na infância e persistir até a fase adulta. Durante o Simpósio Tratamento do TDAH na Adolescência com Atomoxetina, o psiquiatra Sérgio Nolasco, especializado em Psiquiatria da Infância e Adolescência pela Unicamp (SP), explicou que o transtorno está primariamente ligado a um retardo no desenvolvimento do córtex cerebral. A área pré-frontal do córtex é essencial para habilidades como organização, planejamento de tarefas, controle de impulsos, tomada de decisões e regulação emocional. O amadurecimento dessa região é um processo que se estende até a adolescência, o que explica a tendência dos jovens à impulsividade, conforme observa Lígia Reato, Hebiatra e coordenadora do Centro de Referência “Adolescente Cidadão Esperança” (FMABC).
O Processo de Amadurecimento Cerebral no TDAH e Seus Efeitos
Em adolescentes com TDAH, o desenvolvimento do córtex pré-frontal pode demorar de dois anos e meio a três anos a mais em comparação com seus pares sem o transtorno, de acordo com pesquisas realizadas pelo Instituto Nacional de Saúde Americana por meio de ressonâncias magnéticas.
Diagnóstico do TDAH em Adolescentes: Um Olhar Aprofundado na Avaliação Clínica
Os critérios para o diagnóstico de TDAH seguem as diretrizes estabelecidas pela Associação Americana de Psiquiatria (AAP) e pela Organização Mundial de Saúde. É fundamental entender que não existe um exame laboratorial específico; o diagnóstico é feito a partir de uma análise detalhada do histórico clínico do paciente. Para ser diagnosticado, um adolescente deve apresentar no mínimo seis sintomas de desatenção ou seis sintomas de hiperatividade e impulsividade por um período mínimo de seis meses.
Características da Desatenção Conforme a Sociedade Brasileira de Pediatria
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) detalha as manifestações de desatenção que podem indicar o TDAH. Entre elas, destacam-se a dificuldade frequente em prestar atenção a detalhes, resultando em erros por descuido em tarefas acadêmicas ou outras atividades. Outros sinais incluem a incapacidade de manter o foco em atividades ou conversas prolongadas, a impressão de não ouvir quando abordado diretamente, a dificuldade em seguir instruções e concluir tarefas, além da desorganização constante em tarefas e atividades. Aversão a atividades que exigem esforço mental contínuo, perda frequente de objetos importantes, fácil distração por estímulos externos e esquecimento habitual em atividades cotidianas também são sintomas comuns. É notável que, na adolescência, as dificuldades de organização e planejamento tendem a ser mais acentuadas. Embora o TDAH possa afetar o desempenho acadêmico, o psiquiatra Sérgio Nolasco ressalta que as implicações comportamentais e emocionais podem ser ainda mais graves.
Manifestações da Hiperatividade e Impulsividade no TDAH
A hiperatividade se manifesta de diversas formas, incluindo movimentos incessantes de mãos e pés ou agitação no assento. É comum que a pessoa se levante da cadeira em situações em que se espera que permaneça sentada, como na sala de aula ou no trabalho. Correr ou escalar em locais inapropriados é outro indicador, embora em adolescentes e adultos isso possa se manifestar como uma sensação de inquietação. A dificuldade em brincar ou se engajar em atividades de lazer de forma tranquila, a sensação constante de estar “em movimento”, o falar excessivo, a tendência a interromper antes que as perguntas sejam concluídas, a impaciência em esperar a vez e a intrusão em conversas ou atividades alheias também são características marcantes da hiperatividade e impulsividade.
Prevalência Global e Diferenças de Gênero no TDAH
A hebiatra Lígia Reato alertou sobre os números globais do TDAH, que variam entre 5% e 7% da população mundial. No Brasil, estudos indicam uma prevalência de 3% a 6%. Notavelmente, o transtorno é mais comum em meninos, com algumas análises sugerindo uma proporção de 4 meninos para cada menina. Essa disparidade indica uma história de subdiagnóstico em meninas, pois seus sintomas podem se manifestar de maneiras diferentes, com menor incidência de hiperatividade. Sérgio Nolasco enfatiza que, na adolescência, meninas com TDAH frequentemente enfrentam mais desafios de interação social do que meninos, uma realidade pouco discutida e compreendida.
Comorbidades e a Importância do Diagnóstico Precoce
Outro aspecto relevante do TDAH é sua associação com outras condições, como depressão, ansiedade e, em especial, o Transtorno Opositivo Desafiador (TOD). Muitos adultos não tratados só descobrem o TDAH mais tarde na vida, muitas vezes ao buscar ajuda para outras questões psiquiátricas. Nolasco adverte que cerca de 80% dos indivíduos não tratados desenvolverão outras patologias psiquiátricas associadas.
Abordagens Terapêuticas para o TDAH: Um Caminho Integrado
O tratamento do TDAH e de outros transtornos do neurodesenvolvimento exige uma combinação de intervenções. O primeiro passo crucial é a psicoeducação, garantindo que a família receba informações completas sobre o TDAH para oferecer o melhor suporte possível ao adolescente. Além disso, a terapia cognitivo-comportamental é frequentemente indicada, e, quando necessário, a farmacoterapia pode ser empregada. Os especialistas podem prescrever medicamentos estimulantes, como metilfenidato e anfetamina, ou não estimulantes, como Atomoxetina, dependendo do perfil do paciente. As diretrizes de saúde internacionais permitem a medicação para crianças a partir dos seis anos, e em casos mais severos, a Academia Americana de Neurologia e Psiquiatria já autoriza o tratamento medicamentoso no período pré-escolar. Contudo, é importante notar que o Ministério da Saúde do Brasil ainda não incluiu esses medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), com uma decisão de não incorporação divulgada em março de 2020 pela Conitec – Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde.
