A chegada das férias escolares frequentemente se traduz em uma fase de ajustes para crianças cujos pais vivem em lares distintos. Essa transição entre ambientes pode, por vezes, desencadear sentimentos de apreensão, ansiedade e até manifestações físicas de estresse, como perturbações do sono ou dores de cabeça. Conforme a Dra. Danielle Admoni, psiquiatra infantil e supervisora da residência de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM), o pilar fundamental para mitigar esses impactos reside em desvincular as tensões dos adultos dos filhos. Ela enfatiza que os desentendimentos entre os ex-cônjuges não devem recair sobre as crianças. É crucial que, mesmo sem uma amizade, exista uma relação minimamente cordial entre os pais para o benefício emocional dos pequenos. Uma pesquisa recente da Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação (REASE) corrobora essa perspectiva, apontando que a qualidade do relacionamento parental pós-divórcio, a estabilidade da rotina e a comunicação respeitosa são fatores determinantes para o desenvolvimento saudável da criança.
Além dos aspectos práticos, como passagens e arrumação de malas, o bem-estar emocional deve ser uma prioridade no planejamento das férias. É vital dar voz à criança, sempre considerando sua idade e maturidade, e procurar manter certa regularidade nas rotinas diárias, mesmo durante o período de folga. Para facilitar esse processo, algumas orientações práticas podem ser adotadas: organize os planos com antecedência, mas mantenha-se aberto a imprevistos, evitando que pequenas alterações se transformem em conflitos. As férias não são uma competição para ver quem proporciona a experiência mais grandiosa, mas sim uma oportunidade para fortalecer os vínculos e desfrutar da presença mútua. Informe as crianças sobre qualquer mudança de planos com tempo suficiente para que elas possam se preparar psicologicamente. Assegure que a comunicação com o outro genitor seja livre e incentivada, permitindo que a criança se sinta confortável em contatá-lo a qualquer momento. Mantenha horários de sono, alimentação e higiene semelhantes aos da rotina habitual, auxiliando na manutenção do equilíbrio emocional. Por fim, envolva a criança nas decisões sempre que possível, valorizando sua opinião e tornando-a parte ativa do processo.
Embora o término de um relacionamento seja inerentemente doloroso, a maneira como os adultos gerenciam os períodos de convivência compartilhada tem um impacto duradouro na formação dos filhos. A psiquiatra Danielle Admoni ressalta a importância de os pais desviarem o foco de si mesmos e priorizarem genuinamente as necessidades das crianças, especialmente em configurações familiares complexas que podem incluir novos parceiros ou meio-irmãos. Em última análise, o verdadeiro tesouro que se pode oferecer às crianças nestas férias transcende qualquer bem material; reside na certeza de que, independentemente de morarem em casas separadas, elas são amadas, escutadas e acolhidas, sentindo-se seguras e pertencentes em qualquer lugar.
